Depois dos bilhetes comprados saímos da estação de autocarro com os taxistas a continuarem a tentarem convencer-nos para nos levarem. Uma coisa que rapidamente aprendemos no sudeste asiático é que quando é preciso transporte para qualquer lado devemos evitar sempre os grandes hubs se queremos poupar algum dinheiro. Tem sido assim em todo o lado. Então assim que saímos da estação de autocarros um taxista aborda-nos com um valor bem mais baixo do que o que é praticado lá dentro. Ainda conseguimos baixar mais um pouco com alguma arte de regateio. Afinal somos três passageiros o que nos dá alguma margem de negociação. Seguimos de táxi para o hotel com uma paragem pelo caminho numa pequena barraca para pagar-mos a taxa de entrada em Bagan. Todos os estrangeiros tem de pagar uma taxa no valor de 20$ que tem a duração de uma semana. Bagan é um dos principais destinos turísticos do Mianmar por causa dos mais de 2000 templos que se espalham pelas planícies da cidade. Como não é viável nem prático colocar bilheteiras em todos os templos, optaram por cobrar esta taxa de admissão à cidade.
No hotel ainda é cedo para fazer o check-in mas deixam-nos usar um quarto para tomar um banho antes de sairmos. Há várias maneiras de visitar Bagan: a pé, de bicicleta, de moto elétrica, de charrete, de táxi ou até de balão de ar quente. Começamos a pé, não que estejamos a planear usar todas as outras formas (balão de ar quente até que soa muito bem). O nosso hotel fica situado entre “Old Bagan” e Nyaung-U junto à vila Wetkyi. A singularidade de Bagan é a sua pluralidade de templos! A maior parte dos templos estão concentrados perto de “Old Bagan” mas aqui há sempre um templo ao virar da esquina. Começamos por visitar alguns tempos perto da vila de Wetkyi longe dos templos mais concorridos. No primeiro templo que entramos um jovem simpático veio falar connosco e mostrar-nos os cantos à casa. Diz que o templo foi erigido pelos seus antepassados e a família agora toma conta dele. Para ganhar algum dinheiro ele vende pinturas no templo. Mostra-nos várias telas alusivas à região e à cultura. A Rithya acaba por comprar uma tela grande pintada com tinta de areia, bem bonita por sinal.
Umas das maneiras tradicionais de visitar Bagan é de charrete. Dizem que quem vem a Bagan e não faz um passeio de charrete não chega a desfrutar da cidade na sua plenitude. Depois da refeição fomos negociar o passeio. Ainda é de manhã e queremos uma charrete para o dia todo para nos levar aos templos. Estamos na época baixa e há muitas paradas à espera de turistas. Os preços variam conforme o que as pessoas estiverem dispostas a pagar. Lemos que um preço justo são 15$ para o dia apesar de normalmente pedirem à primeira quase o dobro. Conseguimos quem nos leve por 16$. É a charrete nº144. Aqui todas as charretes estão registadas. Não há cá negócios à socapa. 
O charreteiro mastiga o tal tabaco de Mianmar e tem os dentes todos pretos com a pasta quando sorri para nós. Pergunta-nos qual no nosso plano para o dia. Mostramos o mapa que temos com os principais templos e qual a sua sugestão. Traçamos então uma rota pelos templos deixando um em particular para o final do dia, para vermos o por do sol. Ele no fundo é um guia turístico e diz-nos que existem 2270 templos em Bagan. Fico admirado com a precisão mas não sei até que ponto o número corresponde à realidade pois já li referências a outros números. Mas de qualquer das formas, talvez não tenhamos tempo de os visitar todos…
Á hora do almoço paramos na vila Taungbi onde o nosso guia mora. É uma vila composta maioritariamente por casas tradicionais. A casa dele é uma pequena estrutura de bambu com o telhado de folhagem de palmeira. O terreno dele está demarcado por uma frágil estrutura em madeira. Cá fora num estábulo ao ar livre a sua outra égua vai remoendo umas sementes. Enquanto ele almoça vamos visitar a vila e o seu edifício mais emblemático, o mosteiro. Segundo as suas informações este é o mosteiro contruído em madeira teca mais antigo de Bagan. Tem 250 anos. No interior do mosteiro está um grupo de senhoras sentadas no chão a almoçar. Todas elas têm a face pintada de amarelo, como aliás muita gente que encontramos pelo caminho, sejam mulheres ou homens. O pó de thanaka é um pigmento natural extraído da árvore de thanaka que em Mianmar é símbolo de beleza. Até mesmo em Yangon se veem pessoas pintadas de amarelo. Para além de cosmético serve também como protetor solar, para além de outros benefícios que tem para a pele. As senhoras que me acompanham, uma Portuguesa e a outra Khmer, têm andado muito curiosas com este produto de beleza. Recorrendo à linguagem gestual pedem a uma das senhoras no templo se lhes faz uma pintura ao que ela cede amavelmente. Sentam-se enquanto a senhora lhes aplica a pasta no rosto com umas pinceladas suaves e delicadeza. No final vêem-se ao espelho e ficam ambas joviais. Mas mais do que elas as várias senhoras sentadas no mosteiro ficam radiantes ao ver estas estrangeiras pintadas. Até nos pedem para tirarmos uma fotografia junto com um pequenote, talvez filho de alguma delas, também ele pintado.
É uma alegria para esta gente ver estrangeiros por ali e ainda para mais quando se pintam como eles. Deixamos o templo e fomos até à beira rio e depois passamos pelo comércio local, umas barracas onde compramos umas amostras da madeira de thanaka para as senhoras poderem aplicar o cosmético o mais tarde em outras ocasiões.

O nosso guia leva-nos até uma loja onde fazem produtos em madeira laca. A laca é uma tradição nesta zona de Mianmar onde se podem encontrar verdadeiras obras de arte em madeira. A loja é uma autentica exposição de arte em madeira, desde copos, pratos, tabuleiros e outras utilidades até enormes peças de decoração, vasos gigantes, biombos e diversas esculturas. No atelier anexo, uma senhora explica-nos todo o processo de criação e convida-nos a visitar o andar de cima onde várias pessoas trabalham em várias peças com grande detalhe.
Aproveitamos que estamos na vila e visitamos mais dois templos, num deles encontramos uma grande estátua de Buda deitado e no outro o maior Buda sentado de Bagan.
No final do dia vamos até ao templo Shwesandaw, um dos melhores Spots para ver o por do sol. Bagan fica numa planície por isso qualquer lugar é propicio para ver o por do sol. O que torna este templo tão popular é o facto de se poder subir os vários níveis em forma de pirâmide até ao topo de onde ser ergue uma enorme stupa.
Ao contrário de tantos outros, este templo só pode ser visto por fora. Á chegada ao templo finalmente um grupo de seguranças pedem para ver os nossos bilhetes, aqueles que pagamos à entrada da cidade. Até então nunca nos pediram os bilhetes talvez porque já faça parte do protocolo os taxistas pararem com os estrangeiros na barraca à entrada da cidade. Este é o templo onde encontramos mais turistas. Na realidade a quantidade de turistas que encontramos ao longo do dia foi bastante residual, mas parece que se juntaram todos aqui para ver o por do sol. Um monge no topo do templo faz as suas meditações com a planície como pano ed fundo enquanto um grupo de visitantes lhe presta devoção.
Enquanto esperamos no topo vamos observando a paisagem com vistas de 360º sobre toda a planície. O quadro que temos no horizonte é em tons de verde, salpicado por pinceladas em terracota aqui e ali. Enquanto apreciamos esta obra-prima resultado da sinergia da natureza com a mão humana, questionamo-nos o que terá levado esta gente a uma construção desenfreada de templos. Há templos de variadíssimos tamanhos, desde os mais pequenos que não tem mais do que dois metros quadrados, até aos enormes empreendimentos mais vistosos. Diz-se que tudo começou no séc. IX quando o rei Anawratha unificou o país na corrente budista theravada. Durante 250 anos os governadores de Bagan e os seus súbditos mais abastados construíram mais de 10 000 monumentos religiosos nas planícies de Bagan. Se hoje ao olhar para a paisagem ficamos admirados com tamanha beleza, imagine-se o que seria nesses tempos passados! No final, o por do sol até que nem foi nada de especial porque o céu estava enublado, mas a vista vale bem a visita.
No segundo dia em Bagan começamos por visitar a vila de Wetkyi onde fica o hotel. Caminhamos pelas ruas empoeiradas cruzando-nos com os locais aqui e ali sempre sorridentes, à exceção de uns pequenos monges que encontramos pelo caminho que vão muito sérios de porta em porta buscar oferendas. As ruas são delimitadas pelas vedações de madeira ou cana de bambu que separam os terrenos das casas com os seus telhados ora em folha de zinco ora em folha de palmeira seca. Espalhados pela vila encontramos uns pequenos púcaros de água comunitários para saciar a sede dos habitantes. Estes continuam nos seus afazeres mas não deixam de posar para algumas fotos connosco. As vacas passam por nós como se nem existíssemos tão habituadas que estão a deambular por ali.
Depois da visita à vila decidimos ir até Nyang U. Fomos a pé pela estrada parando aqui e ali nas lojas de artesanato, ateliers de laca e de sombrinhas tradicionais, entre outras… Combinamos ir andando e depois apanhar uma pick-up pelo caminho. A nossa amiga Rithya não é muito dada a andar. A dada altura já estávamos quase em Nyang U e pensamos que já não valia a pena ir de transportes. Acabamos por andar 3 Km desde o hotel até ao mercado Mani Sithu. A meio da caminhada a Rithya já se arrastava. Coitada, nunca ela andou tanto na vida! Mas como disse a caminhada não foi direta, fomos parando em vários sítios e é a andar é que se conhece os sítios. Uma dessas paragens foi no museu Shwe Pyi Nann Thanaka, onde tem uma exposição bastante informática sobre tudo o que há para saber da thanaka na cultura birmanesa. É um museu pequeno mas bastante interessante para quem queira conhecer melhor esta faceta cultural do país.


Finalmente chegados ao mercado, demos uma volta pelos barracas de comerciantes, passamos pelos produtos frescos onde vimos entre outros a preparação da pasta que os birmaneses tanto gostam de mastigar. Chama-se Kwun-ya ou paan em inglês e normalmente é composta de folha de pimenteira betel, noz de areca, lima (hidróxido de cálcio) e aroma. Pode também conter tabaco como opção. A pasta verde é preparada à mão no mercado e colocada em pequenos sacos plásticos em dozes individuais. Depois é só mascar … e cuspir. Diga-se de passagem que dá muito mais estilo do que fumar um cigarro. Ainda houve tempo para comprar mais um longyi antes de deixarmos o mercado.
No caminho de volta passamos pela Shwezigon Pagoda, mais uma pagoda dourada, paragem obrigatória de muitos locais que aqui veem prestar o seu culto. A entrada é um verdadeiro bazar com barracas a venderem todo o tipo de bugigangas. O recinto interior é bastante agradável e apesar de já termos visto tantos templos este vale a pena visitar. Depois da visita regressamos ao hotel também a pé. A Rithya já nem se queixa. Também temos uma viagem de seis horas até Mandaley para fazer por isso faz-nos bem esticar as pernas enquanto podemos. E assim despedimo-nos de Bagan e dos seus templos.
Na noite anterior chegamos ao hotel já tarde e vínhamos tão cansados que fomos logo dormir. Acordamos cedo para tomar o pequeno-almoço que é um verdadeiro banquete. Sem perdermos muito tempo saímos para ir ver o palácio real. Temos muito pouco tempo pois o autocarro para o aeroporto sai do centro da cidade às 9:00. É uma cortesia da AirAsia uma vez que o aeroporto fica a 40 Km da cidade. Seguimos pela rua 78 passando pela estacão de caminhos-de-ferro até chegarmos ao palácio. A primeira coisa que fizemos foi procurar o local onde se apanha o autocarro na rua 79. Não há paragem nenhuma nem qualquer sinalização. Sabemos que é naquela rua porque lemos online. Perguntamos num hotel onde nos dizem que é em frente a um determinado restaurante. Os locais quando nos veem com as mochilas confirmam. Pensamos ir visitar o palácio mas o tempo já é curto. O palácio é todo murado e ocupa uma área de quatro quilómetros quadrados delimitado por um canal com água com cerca de 70 m de largura. Existem quatro entradas para o palácio e por azar a entrada para os visitantes é umas das que fica mais longe. Acabamos por desistir da ideia e contentamo-nos com algumas fotografias do exterior e de uma ponte de uma das entradas.




